sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Ano novo, trabalho também!

2017 começa renovado para mim!
Já faz um tempo que eu venho repensando meu trabalho, afinal lá se vão 14 anos e de tempos em tempos isso faz muito bem.
2016 foi um bom momento para refletir e me reinventar. Repensar o trabalho foi de encontro a antigos sonhos lá do início do projeto, com um meu desejo de poder oferecer os vinhos que eu gostava de beber muito antes de entendê-los, ligados aos hábitos familiares e a cultura na qual eu me criei. Eram os vinhos típicos do meu país, diferentes dos de outros, em estilo e variedades, mas que também sabiam (e sabem) ser bons.





Quando se tornou trabalho, o vinho que eu passei a tomar contato se distanciou do das minhas referências pessoais para ganhar conhecimento e dimensão mundial. Só que muitas vezes o conhecimento engessa a gente quando estabelece padrões, quando determina o que é bom e ruim, certo e errado, quando tira o vinho da mesa e de seu contexto cultural e o leva para o alto de um pedestal, fazendo acreditar que bom vinho é só de um tipo, de determinadas variedades e lugares, com um determinado padrão de gosto, e merecedor das mais altas notas da crítica. Isso não é qualidade, é padrão, o que sempre me incomodou, porque tira de quem se interessa pelo vinho a liberdade de escolher e de gostar do que se quiser gostar. Porque deixa de fora tantos bons vinhos do mundo todo que não se enquadram nele, como aquele vinho que eu aprendi a gostar, ou como o vinho que você gosta, mas deixou de tomar porque alguém criticou, menosprezou, dizendo que é ruim ou até mesmo que não era vinho (principalmente se for branco!!!). Infelizmente tem muita gente que ainda pensa assim...


Desde o início meu trabalho não se enquadrou em padrões, seguiu meu coração e abraçou o maior e mais inusitado dos desafios, que é o de divulgar e vender vinhos brasileiros para brasileiros. Consegui resistir num mercado dominado pelos importados e cheguei até aqui, ufa!!! 
2016 representou então a consolidação do meu propósito com uma volta as minhas referências para ir além. Não basta mais só tratar de vinhos feitos no Brasil, mas daqueles que representem uma genuína identidade brasileira, e isso passa longe dos padrões. 
Olhar para o passado não teve nada de saudosismo. Não significa um retrocesso. Foi  o resgate de antigas e autênticas experiências com o vinho para buscar tudo o que tem essa identidade e feito com a qualidade que todo bom vinho deve ter, seja ele qual for.

É costume dizer que esse tal bom vinho nasce no vinhedo. Verdade, e digo mais, ele nasce muito antes disso, com o entendimento e o respeito à relação entre variedade, solo e clima que dá certo, e não aquela que se insiste em criar porque é moda ou tendência mundial. 
Essa é condição fundamental para que um vinho seja bom e natural, porque forçar uma variedade para dar certo em um solo e clima que não é o mais ideal para ela vai requerer intensas intervenções e aplicações de produtos químicos para garantir a sobrevivência das plantas, além de correções na vinificação para moldar o vinho conforme o padrão que o mercado estabeleceu como bom.

Fui buscar então os vinhos que dão certo por aqui, que tem a cara do Brasil, que contam a sua história e que, muitas vezes, vão na contramão dos padrões. Vinhos que as famílias  produziam para seu próprio consumo, porque isso era parte de sua cultura, e que depois se tornou meio de vida. Hoje muitos destes vinhos são um resgate, pelas mãos das novas gerações, do que foi ficando esquecido, numa busca da identidade brasileira e de preservação da cultura regional e de suas famílias.



  

 


Este será o tom do meu trabalho a partir de agora, o tom de tudo o que é genuinamente brasileiro e bom. Então para aqueles que me perguntam se eu tenho Malbec, já sabe!!!
Vou falar de regiões onde o vinho não só dá certo, mas onde ganha identidade própria e estabelece relações estreitas com a alimentação e a cultura local. Vou tratar de variedades que vocês até já estão familiarizados, como Peverella, Riesling Itálico, Cabernet Franc, Merlot, Ancellotta ou Teroldego, mas também vão começar a ver mais Moscato, Goethe, Barbera, Sangiovese e inclusive Isabel, Bordo, Niagara e Lorena. Sim, as discriminadas uvas labruscas que fazem os vinhos de mesa no Brasil e que estão em nossas mesas para consumo in natura. Se o aroma e gosto da uva são bons para comer, por que não para beber?
Recentemente li uma sábia frase que diz que não existem variedades ruins, o que existe são produtores ruins. Grande verdade, que vale para qualquer tipo de uva e vinho do mundo todo.
Sem dúvida os vinhos das uvas de mesa são mais simples, menos complexos, tem aroma e sabor de uva mesmo, mas quando feitos com a mesma qualidade dos finos, são simplesmente deliciosos e encantadores. E o melhor de tudo é que não precisam de pompa e circunstância para serem bebidos, pode ser a qualquer hora, em qualquer lugar, no copo que quiser e do jeito que der vontade. 
É libertador!

Isabel, rainha das labruscas!

Eu não tenho a menor pretensão em equiparar os vinhos de mesa (feitos de uvas labruscas ou americanas) aos finos (feitos de uvas viníferas), pelo contrário, cada coisa no seu momento e lugar. Eu quero é celebrar a diversidade, valorizar o prazer de beber tudo o que se gosta e que tem a qualidade de ser bom e genuíno.
Quero devolver ao vinho sua simplicidade para que desça do pedestal e volte para a mesa, onde mais pessoas possam desfrutar desse prazer, não só em grandes celebrações, jantares especiais ou rodas de conhecedores, mas no dia a dia, nas refeições, no encontro com os amigos, no churrasco ou simplesmente para matar a sede e se divertir, como se faz com a cerveja.

O que eu falo, eu pratico! Esta foto é de um momento recente e muito especial com um vinho de Zeperina, variedade não vinífera e desconhecida, que eu ganhei da Lizete Vicari, produtora do Domínio Vicari, e que compartilhei com clientes e amigos queridos num almoço de final de ano. 
Vinho é isso, simples assim, bom assim.


 

Todo esse papo deu uma sede danada, então vamos lá abrir um vinho gostoso e brindar a tudo o que é brasileiro e bom!


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Goethe, a uva com nome de escritor

"Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor."
Goethe
É neste pensamento do escritor e pensador alemão Johann Wolfgang von Goethe, ou simplesmente Goethe, que eu me inspiro quando vou atrás dos meus sonhos e projetos. E talvez também tenha sido esta a inspiração que motivou o horticulturista norte-americano Edward Staniford Rogers a dar o nome Goethe à uma uva branca que desenvolveu em 1851, em Massachusetts, nos Estados Unidos.


O objetivo desta experiência feita por Rogers foi combinar a rusticidade e resistência das videiras americanas (vitis labrusca) com a riqueza de aromas e sabores das européias (vitis vinífera). A bem sucedida experiência gerou 45 híbridas, que passaram a ser conhecidas como “híbridos de Rogers”. À híbrida número 1 Rogers deu o nome de Goethe em homenagem ao escritor alemão. Imagino que Goethe adoraria tomar uma taça deste vinho enquanto se inspirava para escrever seus pensamentos, como um dos que mostra sua afinidade com a bebida: "A juventude é a embriaguez sem vinho."


Os vinhos produzidos com a uva Goethe tem características olfativas e gustativas dos Moscatos, certamente herdadas dos 87,5% da vinífera Moscato de Hamburgo em sua composição, combinada a 12,5% da labrusca Carter. Foi considerada a uva com mais características de vinífera de todas as híbridas criadas por Rogers e gera vinhos leves, frescos, aromáticos e muito agradáveis.





Uvas híbridas tem sido desenvolvidas pelo mundo nas últimas décadas em países como a Alemanha e a França. A busca é por variedades que sejam mais resistentes às mudanças climáticas que já estão afetando áreas tradicionais de produção de uva e vinho, como também que promovam maior sustentabilidade, diminuindo o uso de agrotóxicos e pesticidas. Na Alemanha, por exemplo, a Regent é uma híbrida bem sucedida e já em produção.



No Brasil a trajetória da Goethe começa com o imigrante italiano Benedito Marengo. Encarregado dos viveiros de um fazendeiro em São Paulo, foi o responsável pela introdução, ainda no século XIX, de diversas variedades de uvas no Brasil, entre elas a Goethe. Outro italiano, o Sr. Giuseppe Caruso MacDonald, era regente do Consulado da Itália e trabalhava em São Paulo. Tempos depois foi designado para acompanhar as colônias de imigrantes italianos que se estabeleceram em Santa Catarina a partir de 1877. A região era a do Vale do Rio Carvão, que hoje compreende as cidades de Azambuja, Urussanga, Pedras Grandes, Nova Veneza, Morro da Fumaça e Içara. Essa área está localizada entre o litoral e o início das elevações da Serra Geral, coberta pela vegetação nativa da Mata Atlântica e a uma altitude de 50 metros.



O Sr. Caruso se estabeleceu em Urussanga, onde escrevia um jornal chamado La Pátria, que circulava entre os colonos e onde ele dava orientações sobre o plantio de uva na região. Sua relação com Marengo em São Paulo o fez tomar contato com a uva Goethe, que ele acabou por levar para a região e distribuir aos colonos que, como no Rio Grande do Sul, já produziam vinho para o próprio consumo desde sua chegada.
Outras variedades também foram implantadas na região para identificar as que melhor se adaptavam às condições do clima e do solo. Além de sua perfeita adaptação, a Goehte foi escolhida como a uva da região por ser a variedade cujos vinhos mais se assemelhavam aqueles que os italianos costumavam beber quando viviam ainda na Itália. Talvez para eles foi como se sentir em casa novamente, voltando a sentir o prazer daquilo que para eles era tão familiar, o vinho!




A partir daí muitas vinícolas se estabeleceram e prosperaram por lá. O auge dos vinhos Goethe se deu entre as décadas de 30 e 50, quando conquistaram reconhecimento e receberam premiações em exposições pelo Brasil e também nos USA, e  eram comercializados para todo o país, tornando-se um importante produto comercial para a região. Urussanga passou então a ser considerada a capital catarinense do vinho. Os moradores se sentiam orgulhosos, sobretudo porque os vinhos Goethe conquistaram o paladar do presidente Getúlio Vargas, sendo escolhido por ele para as recepções do Palácio do Catete durante seu governo. A importância da produção era tanta que, através do Ministério da Agricultura, o presidente Vargas decidiu apoiar a vitivinicultura na região, fundando o Instituto de Fermentação para estimular a pesquisa com diferentes espécies de uvas viníferas. Em 1950 passou a ser chamado de Subestação de Enologia de Urussanga. No auge dos trabalhos do Instituto foram feitos experimentos com cerca de 450 variedades de videiras. 

Além de gostar de vinhos, o charuto era  companheiro inseparável de Getulio Vargas
Ao mesmo tempo em que os imigrantes italianos descobriam o potencial da região como produtora de uva e vinho, também se revelou sua riqueza em carvão mineral. Já no início do século XX começou a exploração das jazidas, que logo atraiu profissionais e empresas de outras regiões do país. Para a população local o trabalho na indústria do carvão representou uma atividade melhor remunerada, fazendo migrar a mão de obra das vinícolas para a indústria, iniciando-se um período de declínio da atividade agrícola e ascenção do carvão. Em seguida veio a Segunda Guerra Mundial que, no Brasil, cerceou todas as manifestações culturais dos italianos, inclusive a produção de vinho, com a justificativa de que representavam um perigo de alinhamento com as ideologias nazi-fascistas. Mais uma vez o Brasil viu uma promissora atividade vitivinícola ser interrompida.



Apesar de todos os obstáculos, a produção dos vinhos de uva Goethe resistiu e teve sua reviravolta a partir das décadas de 70 e 80, quando em várias outras regiões do Brasil se iniciaram movimentos de resgate das referências de identidade do passado e de valorização da experiência dos ancestrais imigrantes. Os primeiros movimentos começaram com comemorações pelo centenário da imigração italiana e da fundação de Urussanga. A partir daí empresários da região organizaram um trabalho de incentivo ao resgate da produção vitivinícola. Na década de 80 produtores e Prefeitura Municipal instituiram a Festa do Vinho, festividade que acontece até hoje a cada dois anos. Alguns anos depois outra festa foi incluída no calendário da cidade, sempre nos anos ímpares, a festa Ritorno Alle Origini. Também na década de 80 se iniciaram as negociações para o Gemelaggio, um intercâmbio entre os imigrantes da região e os italianos da cidade de Longarone. Esta parceria foi importante para a comunidade voltar no tempo, seguindo pelos caminhos da saga de suas famílias, com todas as suas dificuldades e trabalho, o que contribuiu para a valorização da cultura local. 
Na década de 1990 os experimentos com as uvas foram retomados na antiga Subestação de Enologia, que passou a ser chamada Estação Experimental de Urussanga, dirigida pela Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) e contando com uma unidade didática de produção de vinhos e diversos cursos de capacitação para produtores.




Em 2005 se iniciou um dos mais importantes projetos para o definitivo reconhecimento da região, o do Vales da Uva e do Vinho Goethe. Produtores da região criaram uma Associação, a ProGoethe, que com apoio de Sebrae, Epagri e Universidade Federal de SC foram buscar o Selo de Indicação de Procedência para seus vinhos.
A tipicidade dos vinhos, produzidos em uma região delimitada, com fortes significados histórico-culturais e estreitas relações com o meio rural e com sua população foram fatores suficientes para que, em novembro de 2011, o INPI concedesse o Selo de Indicação de Procedência Vales da Uva Goethe. Além disso, a Goethe desta região sofreu uma mutação natural, gerando um clone de características distintas, que foi batizada de Goethe Primo e possibilitou elaborar vinhos brancos que se tornaram típicos da região.
Esta conquista deu um grande impulso a produção. Os produtores passaram a entender que para seus vinhos receberem o Selo, não era suficiente que o vinho fosse feito da uva Goethe, mas que tivesse tipicidade e qualidade. Para isso foram buscar capacitação profissional e recursos técnicos para melhorar a qualidade.
A população passou a sentir orgulho desta conquista e a buscar os vinhos que ostentassem o Selo por reconhecerem que eram estes os vinhos de melhor qualidade, estimulando ainda mais os produtores a aprimorarem seus produtos. 
A fama do vinho Goethe se espalhou para além dos limites da cidade e pessoas de outras regiões começaram a chegar para visitar e provar os vinhos, trazendo para a região uma nova e promissora atividade, o enoturismo. 
A região conhecida tradicionalmente como o Vale do Rio Carvão hoje ostenta o nome mais poético de Vales da Uva e do Vinho Goethe. 

 


Orgulho é mesmo o que a gente sente quando visita este lugar. As vinícolas e pequenos produtores até elaboram vinhos de outras variedades, mas o Goethe é a menina dos olhos de todos! Os restaurantes oferecem várias rótulos e os preços são muito convidativos. A população conhece e consome seu próprio vinho porque há um forte sentido de valor por este produto local, que se vê em poucos lugares do Brasil. 

Matheus Damian, a quarta geração da família a frente da vinícola Casa Del Nono

Você deve estar se perguntando como nunca ouviu falar desta uva e porque nunca viu um vinho deste pelo mercado. Primeiro porque é um produto típico da cultura da região, de produção pequena e consumo local. Segundo que por se tratar de uma uva com uma variedade americana em sua composição, mesmo em menor proporção, faz com que, pela legislação, seus vinhos sejam considerados de mesa e não como finos. E todos sabemos quanto preconceito existe no Brasil quanto aos vinhos de mesa!
Uma grande injustiça por sinal, pois sua bela cor, aromas e sabores deliciosos o fazem sim merecer um lugar em meio aos bons vinhos finos.
E terceiro porque a concessão da IP e o salto de qualidade da produção são recentes, permitindo que agora o vinho Goethe possa se apresentar em grande estilo para o mercado



Alguns dos vinhos dos 13 produtores associados da Progoethe

Sabe aquelas pequenas cidades européias que a gente visita e se encanta com seus vinhos locais, encontrados facilmente nos restaurantes, mercados e lojas, que a gente bebe sem nenhuma cerimônia e que paga por eles preços super camaradas?
Então, é isso que você vai encontrar em Urussanga e nos vinhos Goethe! É a mesma coisa, só que é no Brasil e com uma variedade de uva diferente, única e que é brasileira por excelência!
Então abra seu coração e sua cabeça, deixe de lado o preconceito e o apego aos padrões, e viva esta nova experiência!



quinta-feira, 25 de junho de 2015

Antonio Prado das casas italianas e da Casa Olivo

Acabo de voltar do Rio Grande do Sul, muito feliz, de uma viagem com um propósito importante: garimpar novos vinhos, é claro, mas também resgatar um pouco da história do vinho brasileiro e de seu povo lutador. Afinal de contas o vinho é a integração única de terra, clima, uva, do saber fazer do homem e da história que o inspira, seja ela herdada da cultura de seus antepassados ou por uma afinidade apaixonada pelo vinho. E isso tudo o Rio Grande do Sul esbanja!


A primeira parada desta jornada foi em Antonio Prado, a 63km de Vacaria, que é a primeira cidade a que se chega ao Rio Grande do Sul pela BR-116. Antonio Prado é a mais italiana das cidades do estado, com um grande valor histórico e cultural. Lá 48 casas de madeira e alvenaria, construídas por aqueles primeiros imigrantes italianos que chegaram ao sul, foram tombadas pelo Patrimônio Histórico para preservar essa cultura. Andar pelo centro histórico da cidade é como viajar no tempo, imaginando como seriam aqueles tempos de trabalho duro, em que tudo teve que ser construído do zero.














   
Cada uma das casas tombadas tem na fachada uma placa contando a história das pessoas que a construíram, famílias que lá viveram e de pequenos negócios que foram iniciados nelas.
Algumas destas histórias são emocionantes, como estas:















E foi nesta pequena e histórica cidade, de pouco mais de 12.800 habitantes, que eu tive o grande prazer de conhecer um daqueles pequenos projetos vinícolas que tanto me encantam, a Casa Olivo do produtor Aureo Ditadi. Faz mais de um ano que eu descobri esta vinícola e o que logo me chamou atenção foi que, na contramão do que faz a maioria das vinícolas, a aposta foi nas uvas brancas, a primeira coisa que eu quis saber do Aureo quando cheguei lá. Então ele me contou que trata-se de um lugar com condições muito favoráveis para as variedades brancas, que é a região de Vacaria, em Campos de Cima da Serra. São 1033 metros de altitude, solos arenosos, temperaturas médias baixas, alta insolação durante o dia, grande amplitude térmica, menor incidência de chuvas e ventos constantes que mantém os vinhedos secos e protegidos da ação da umidade desta região.



Valeu a pena a visita, os vinhos são incríveis! A proposta é fazer vinhos mais puros, expressão deste lugar particular. Pelas condições próprias da região é possível praticar um cultivo mais sustentável, com uso mínimo de tratamentos nos vinhedos. A vinificação é feita com mínima intervenção e baixo uso de sulfitos.
O que me encantou nestes brancos deliciosos, além da qualidade e do cuidado com que são feitos, é sua personalidade única, que o produtor diz ser a marca do lugar e que a gente sente mesmo na taça. O fio condutor de todos os vinhos é um traço comum de mineralidade e floral nos aromas, e no paladar um toque final salgado e muito agradável, que eu já encontrei também no paladar de alguns outros vinhos produzidos em Campos de Cima da Serra.
Estas notas se combinam com a características particulares de cada uma dos varietais que ele produz: Chardonnay, Sauvignon Blanc, Viognier e Pinot Grigio, todos batizados com o nome de 1033, a altitude que deu o tom especial a estes vinhos.



Da nova safra de 2015, que ainda não está engarrafada, eu tive a oportunidade de provar apenas o Viognier. Acidez perfeita faz a boca salivar intensamente, deixando um incrível frescor. É delicado e elegante, com a base mineral e floral combinada a toques cítricos. O 2013 mantém o estilo aromático, um pouco mais discreto e com toque marcado de lima.



O Chardonnay que provei foi o 2012, bem diferente da maioria que se encontra no mercado. Neste se percebe a personalidade de Vacaria. Mineral e floral com calda de pêssego e pêra. Nenhum exagero ao paladar, álcool de 12,4% bem escoltado pela ótima acidez, outro traço marcante dos vinhos deste lugar que o produtor faz questão de preservar.

O Sauvignon Blanc é uma beleza, original, delicado e marcante. Provamos uma safra mais antiga, 2013, que já mostra um tom mais dourado na cor, revelando maturidade, mas que ainda irá resistir por mais um ou dois anos na garrafa. Ou mais, nunca se sabe... Tem uma incrível riqueza aromática. Mineral e floral são, como em todos, o pano de fundo, combinados a maracujá, cítricos, ervas frescas e uma deliciosa nota de goiaba branca. Esbanja frescor, com ótima presença em boca e aquele toque salgado que aparece depois de engolir. 
Não é a toa que o Aureo diz ser este o melhor vinho de todos!



O Pinot Grigio foi uma agradável surpresa para nós. O Aureo estava com receio em me apresentar, pois se trata de uma uva para vinhos de perfil jovem e este é 2013, que ele acreditava já estar passado, mas se animou quando eu disse que gosto dos vinhos evoluídos. E foi uma alegria provar este vinho, também já mais dourado na taça, e de uma riqueza aromática incrível! No RS se costuma fazer “chimia” de frutas, que é um tipo de geléia mais pastosa, ainda produzida de forma bastante artesanal, guardando os sabores naturais das frutas. E foi o aroma de uma chimia de figo que nós dois sentimos logo de cara. Aí vieram todos aqueles aromas dos vinhos evoluídos, de frutas secas como a amêndoa, damasco, e aquela maçã madura, quase passada, típica dos Chenin Blanc do Loire, que eu particularmente adoro! O paladar confirma estes aromas, com frescor, mas com acidez naturalmente mais baixa em relação aos outros três. 
Para quem gosta deste estilo de vinho, é um grande prazer!



Para fechar a degustação com chave de ouro o Aureo me apresentou uma surpresa: seu primeiro tinto da variedade Merlot, o Passo da Caveira. O nome tão diferente é uma homenagem da Casa Olivo a uma batalha histórica que aconteceu no município de Monte Alegre dos Campos, num local chamado Capão da Caveira, onde hoje estão os vinhedos. A safra é 2012 e, como seus irmãos brancos, traz o traço mineral que marca este lugar na forma de grafite, que acompanha todos os aromas que vão se revelando, de cereja, de ameixa e de pimenta preta. Teve uma breve passagem por carvalho francês, que lhe deu refinamento, mas sem esconder seus aromas deliciosos. Boca macia de Merlot, acidez na medida certa, corpo leve e bem elegante. Muito original, adorei!





                                                             


A produção total é pequena e não atinge ainda a capacidade total projetada para a vinícola de 20.000 litros/ano. E é assim que o Aureo pretende manter para garantir a personalidade e a qualidade que quer de seus vinhos. 
Conhecer este projeto me faz pensar em verdadeiros vinhos de terroir, um conceito que anda um tanto desgastado, mas que nestes vinhos a gente encontra sua pura expressão.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Segunda Vindima de Altitude e o futuro da Serra Catarinense


Segunda festa da Vindima de Altitude e lá fui eu novamente pegar a estrada em direção a Serra Catarinense, este ano com a promessa de não apenas provar bons vinhos, mas saborear pratos típicos preparados especialmente para o evento e desfrutar de atividades culturais, como a apresentação do Ballet Bolshoi. Valeu a pena!
Muita gente brinca comigo: “trabalho difícil o seu!” Realmente é um grande prazer e um privilégio viajar por regiões vinícolas, visitar produtores, ver de perto o trabalho de produção e provar vinhos, além de  poder contemplar as incríveis paisagens onde elas estão inseridas. Mas nem tudo é só prazer.  Quando se trata de Brasil há grandes desafios para toda a cadeia do vinho, da produção a comercialização, sobretudo para uma região nova como a Serra Catarinense. É imenso o desafio de produzir com qualidade e ser competitivo num país com carga tributária e custos tão elevados. Tão grande quanto é o desafio de se fazer conhecido e conquistar consumidores cada vez mais exigentes, tendo ainda que vencer as duras barreiras do preconceito ao vinho brasileiro.





Foto: Acavitis

Para essa gente empreendedora de Santa Catarina os desafios são motivação e foi a partir deles que nasceu o evento da Vindima de Altitude. Ao mesmo tempo em que é celebração do momento tão esperado da colheita e dos bons vinhos produzidos já há 15 anos, é também ação mobilizadora para buscar recursos e apoio junto aos governos municipal e estadual para desenvolver o enoturismo na região. Qualidade os vinhos já tem. A natureza e o clima são convidativos. A culinária local é rica e saborosa. O povo é alegre e hospitaleiro. Então o que falta agora é infra-estrutura adequada para receber os turistas e oferecer uma experiência completa e prazerosa do vinho em sua origem.
Em todos os países produtores o enoturismo alavanca a economia de suas regiões, gera recursos e promove o desenvolvimento de todo tipo de negócio, vinícolas, restaurantes, hotéis, arte e artesanato, e pontos turísticos locais. É isso que São Joaquim quer e precisa hoje, assim como os demais municípios produtores. A economia da cidade gira em torno da produção da maçã, mas irá se beneficiar do crescimento promovido com recursos  gerados pela produção do vinho. O turismo é forte apenas nos meses do inverno por conta do frio intenso e da neve, então explorar melhor tantos recursos e belezas naturais da região será um atrativo convite para os turistas durante todo o ano para provar culinária e vinhos regionais, e praticar atividades ao ar livre como cavalgadas, trilhas para caminhadas e de bicicleta, tirolesas ou a simples contemplação das paisagens incríveis de seus vales, montanhas e canions, que fazem cair o queixo. Sem esquecer das Araucárias, que eu amo tanto!

Morro da Igreja em pleno inverno


Tão grandes quanto todos os desafios são também as certezas que se reforçam cada vez que vivencio o vinho brasileiro assim tão de perto. Certezas que me fazem continuar afirmando:  vinho brasileiro é bom sim! E quem visitar a Serra Catarinense pode comprovar o que eu digo: lugar com clima e solo que as uvas adoram; produtores apaixonados e comprometidos com seus propósitos de produzir o melhor que essa terra pode dar; vinhos que surpreendem na taça, com toda a qualidade que se espera deles e que guardam o estilo que vem do frio.
Hospitalidade, generosidade e paixão são características comuns a todo produtor e não é diferente por lá. Então para os produtores serranos celebrar a festa da Vindima é um momento muito especial para receber os visitantes, fazer conhecer o seu bom trabalho e encher, com muito orgulho, suas taças do bom vinho que produzem.

Acari Amorim, produtor da Quinta da Neve, presidente da Acavitis e grande anfitrião desta festa bonita

O mercado é quase sempre apressado, não tem o mesmo tempo e paciência do vinho, e quer logo saber: qual o melhor vinho de Santa Catarina? É cedo ainda para dar um veredito, tudo é muito novo por lá, 15 anos é uma infância para o vinho! Porém já há alguns indícios do que está se dando bem por lá. As variedades brancas adoram o clima frio da região. Sauvignon Blanc já se consagrou como um dos grandes destaques e que tem mesmo qualidade e tipicidade incríveis. Os Chardonnay também são do mais alto nível. E vem brancos interessantes pela frente. Provei um Garganega da Leone di Venezia, um dos mais novos projetos de São Joaquim, que em breve chegará ao mercado, e que posso garantir: vai surpreender!
Atentas ao mercado, que tem dado cada vez mais espaço aos espumantes e roses, as vinícolas catarinenses investiram e capricharam na produção destes produtos. E está dando certo, a boa aceitação dos consumidores e o aumento das vendas vem estimulando o lançamento de novidades.  Gostei muito do Sublime, rose da vinícola Monte Agudo. Gostoso, frutado e fresco, traz um trabalho original e bonito de design na garrafa e no rótulo.



O mundo dos tintos ainda está se definindo. Os primeiros projetos apostaram em Cabernet Sauvignon e Merlot, por sua versatilidade de adaptação e por serem preferência entre consumidores, mas talvez não sejam estas as uvas que farão os grandes vinhos de altitude. Alguns produtores conseguiram bons exemplares varietais, como o elegante Hiragami Cabernet Sauvignon, produzido com toda a precisão japonesa. Melhor que em varietais, os cortes destas uvas tem se mostrado um bom caminho. Um dos que vem apresentando excelente qualidade e consistência é o Inominnabile, da Villagio Grando, um corte de uvas e safras, já em seu quarto lote. O Leopoldo, da vinícola Santo Emílio, é um dos cortes que faz bastante sucesso, assim como os já consagrados Francesco, Michelli e VF Tinto, todos da Villa Francioni.
Na contramão de muitos que não acreditam que é possível o cultivo orgânico na região, a Santa Augusta apostou num elegante corte bordalês de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, com uvas de vinhedos em Água Doce cultivados em sistema biodinâmico, e acertou em cheio! A vinícola está reconvertendo ainda os vinhedos de Videira e logo teremos brancos e espumantes biodinâmicos também.

Imortali, o biodinâmico da Santa Augusta

Há boas apostas em outras variedades como a Pinot Noir, que a vinícola Quinta da Neve já se tornou referência, e algumas castas portuguesas, como a Touriga Nacional. Mas das minhas andanças, papos e provas pela região ouso dizer que as castas italianas vão surpreender e abrir caminhos bem promissores para os vinhos de altitude, com a Sangiovese encabeçando a lista. Algumas vinícolas vão lançar seus primeiros varietais ainda este ano e uma das minhas grandes expectativas é para o excelente Sangiovese da Leone di Venezia, um projeto que tem a Itália como fonte de inspiração, desde a implantação das variedades, em sua maioria autóctones italianas, até a construção da vinícola, inspirada em palácios venezianos. E não poderia ser diferente, seu produtor, Saul Paulo Bianco, é de origem italiana.
A boa fama da Sangiovese inclusive desceu a serra e foi bater na porta da nossa querida Lizete Vicari, do Domínio Vicari lá da Praia do Rosa, que em 2014 fez com uvas de cultivo orgânico em Urubici, vizinha de São Joaquim, um Sangiovese delicioso, a moda natural!

Leone di Venezia, o leão alado de São Marcos, que dá nome e é símbolo da vinícola

E foi na fria Urubici, 60 km de São Joquim, que eu descobri, escondido em uma paisagem incrível, um daqueles pequenos produtores brasileiros que eu adoro garimpar! Zeca Marques é um descendente de espanhol que criou a Casa Cervantes, onde hoje produz dois vinhos: o Altitude 1100 e o Curucaca, cortes de Cabernet Sauvignon e Merlot. No primeiro entra a Montepulciano e no segundo a Sangiovese (olha ela aí de novo!). Ambos elaborados sem madeira, com pouca intervenção e muito bons de beber!
Ele produziu também um espumante, corte de Pinot Noir, Merlot e Sangiovese. Ainda não provei, mas segundo o próprio Zeca, ele mesmo se surpreendeu com o espumante tão bom que produziu, a altura dos bons Champagne.


Acredito que esta nova região do vinho brasileiro, tão diversa e singular, ainda não explorou todas as suas possibilidades, que podem gerar algo maior e melhor do que já foi feito até então. Mas para isso talvez seja preciso apostar menos em padrões de mercado para ousar mais, experimentar variedades e estilos novos de vinhos para deixar falar a vocação e a identidade deste lugar. As castas italianas já estão se mostrando uma boa aposta e há também quem já esteja enxergando outras possibilidades, como a vinícola Pericó, que em 2009 produziu o primeiro ice wine, ou vinho do gelo. Nesta que é a região mais fria do Brasil as temperaturas já chegaram a atingir a casa dos 10 graus negativos, condição ideal para que as uvas, que já amadurecem mais tardiamente, congelem nas vinhas e seja possível produzir este tipo de vinho naturalmente. Ou também como fez a Villa Francioni ao produzir um vinho de sobremesa botritizado quando detectaram vinhedos atacados pela podridão nobre, a Botritys Cinerea, que só acontece em alguns lugares do mundo e em raras condições climáticas. Foi apenas uma safra de cada vinho e nada ainda consistente, afinal é a natureza quem decide quando será possível fazê-los novamente. Mas estas experiências mostram que um olhar para novas possibilidades poderá gerar vinhos que se diferenciem e surpreendam os consumidores. 



Então ao invés de respostas quanto ao melhor vinho da região, fica a pergunta: o que vem pela frente? Quem sabe nas próximas edições da Vindima de Altitude poderemos ser surpreendidos com algumas destas boas respostas.