terça-feira, 5 de novembro de 2013

Biodinâmico e brasileiro, sim senhor!


6:30 da manhã em Videira, Serra Catarinense. Faz 6º graus de temperatura em pleno 28 de outubro, já primavera. Eu e o enólogo da Vinícola Santa Augusta, Jefferson Sancineto Nunes, partimos em direção a Água Doce, a 100 km de distância, onde estão os vinhedos do primeiro vinho biodinâmico produzido no Brasil, o Imortali.
Saímos de 878 metros de altitude para 1.290 metros.
Eu nem sentia frio tal era a ansiedade para acompanhar, pela primeira vez, uma etapa do trabalho biodinâmico, prevista para ser feita exatamente nesta época.

 


Chegamos no momento em que o chifre-sílica está sendo dinamizado em água para em seguida ser aplicado nos vinhedos. Este nome estranho, que nada tem a ver com bruxaria, é de um preparado bem simples a base de minerais macerados e diluído em água. O objetivo de aplicar este preparado no momento em que as vinhas estão em plena brotação é dar vigor, energia e resistência às plantas para que desenvolvam uma boa área foliar, fundamental para o processo de fotossíntese, energia vital para a brotação e amadurecimento pleno das uvas. E é preciso mesmo que seja feito bem cedo para que o calor do sol, que logo se intensifica, não evapore rapidamente o orvalho que mantém as plantas úmidas para melhor absorção do produto.
 
 
 

Biodinâmica é um assunto fascinante, porém ainda cercado de desinformação, desconfiança e algumas controvérsias. Então a convite do Jefferson, que já sabia do meu interesse pelo assunto, vim até essa nova região, por sinal de muita beleza e promissora para a vinicultura, para desvendar os mistérios desta produção e ver o que isso verdadeiramente representa para o vinho.
Tenho estudado bastante, já provei vinhos biodinâmicos, mas nada se compara ao aprendizado que tive aqui! Ao nos aproximamos dos vinhedos a gente logo percebe que se trata de um lugar diferenciado, um ambiente saudável. A primavera estimula nossos sentidos e cheiros muito agradáveis são os primeiros a nos receber: dos vinhedos em plena brotação, da natureza preservada ao redor, repleta de araucárias (rainha no sul do Brasil), da terra sadia, livre de produtos químicos, e das roseiras em flor. As cores são intensas, iluminadas por uma luz de primavera que faz encher nossos olhos com um quadro em tons de verde e rosa em contraste com um céu azul sem nuvens. A propósito, as roseiras plantadas na ponta de cada fileira de vinhas não são apenas para dar mais beleza e cor. Elas dão o alerta para alguma doença ou praga que podem afetar os vinhedos, já que são as primeiras a serem atacadas por elas. É simplesmente encantador!
Tudo isso já nos dá sinais do que se pode encontrar nos vinhos cultivados sob este conceito.
 
 

O Jefferson, já com longa carreira em agronomia e enologia, e muita experiência na produção de vinhos, está fazendo pós-graduação em Biodinâmica no Instituto Elo em Botucatu, interior de São Paulo. Ele me conta que o curso mudou não apenas seus conceitos e seu modo de produzir vinhos, mas também sua vida pessoal. Cultiva hoje em sua casa uma horta onde aplica os preceitos da biodinâmica para produzir ervas e verduras para seu consumo próprio. E é a biodinâmica que está promovendo mudanças significativas nestes vinhedos.
Mas afinal, do que se trata? O que comumente se ouve pelo mercado é que biodinâmica é algo esotérico, místico, até mesmo bruxaria. Grande bobagem!
Na teoria, a biodinâmica se originou da Antroposofia, criada pelo austríaco Rudolf Steiner. Seu objetivo é renovar o manejo agrícola, saneando o meio ambiente para produzir alimentos condignos ao ser humano.
Na prática, biodinâmica é pura observação dos movimentos e ciclos da natureza, das estações do ano e fases da lua, como faziam os antepassados antes da chegada da tecnologia e antes que toda uma indústria de produtos químicos se desenvolvesse e passasse a dominar os tratamentos no campo. Trata-se da energia pura que move a natureza, aquela que enche e esvazia as marés, influencia o nascimento dos bebês, o cultivo de todo tipo de plantas e até mesmo um simples corte de cabelo.
Nos vinhedos essa mesma energia vital é fundamental para o crescimento e desenvolvimento das plantas e frutos, ligada a duas grandes fontes: a terra e o sol.

 
No caso da terra, é necessário que os solos estejam saudáveis, equilibrados, com presença de matéria orgânica para a nutrição adequada das plantas, com permeabilidade para que água suficiente penetre na terra para o necessário abastecimento da planta, e para que todos os organismos convivam em harmonia, tanto bons quanto ruins.
Nas práticas convencionais, em que se faz uso de herbicidas, pesticidas, agrotóxicos e todo o tipo de química, o objetivo é matar fungos, pragas e insetos que possam causar doenças e prejuízos as plantas e aos frutos. Só que o mesmo produto químico que mata estes organismos destrói também o fluxo de energia natural no vinhedo. Estes produtos vão empobrecendo as camadas superficiais do solo, destruindo a matéria orgânica e promovendo a formação de um limo, que dificulta a circulação desta energia, a nutrição das plantas e diminuindo sua resistência natural.
Na biodinâmica, que faz uso de tratamentos livres de química, o objetivo nunca é matar estes organismos, mas sim fortalecer a planta e equilibrar o ecossistema para afastar estas ameaças dos vinhedos, fazendo com que todos estes organismos convivam em equilíbrio. E quando a planta e o solo são resistentes e saudáveis, dificilmente as doenças irão se instalar.


A joanhinha, símbolo de um ecossistema saudável.



A luminosidade do sol está ligada a um dos mais importantes processos de produção de energia da planta: a fotossíntese. E luminosidade é o que não falta nestas elevadas altitudes de Videira e Água Doce.
A fotossíntese gera toda a energia necessária para o desenvolvimento dos frutos e para a maturação de todos os seus elementos importantes: polifenóis, taninos, antocianos (pigmentos da cor), ácidos e açúcar na proporção adequada para a formação do álcool.
Quanto mais saudáveis e resistentes forem as folhas, e quanto maior sua exposição a luminosidade, mais eficiente será o processo da fotossíntese nas plantas. Consequentemente melhor será a qualidade das uvas.
É por isso que se diz que um bom vinho nasce no vinhedo.



A próxima pergunta é: que diferença isso tudo faz no vinho?
Retornamos a tarde para Videira, onde está instalada a vinícola. Lá o Jefferson me leva até a sala das barricas, onde desde 03/05/2013 repousa a segunda safra do Imortali, 2013, em quatro barricas de carvalho francês usadas, que vão dar apenas 1.200 garrafas do vinho. Com uma pipeta ele retira uma pequena quantidade de cada barrica, fazendo um blend na taça e me passa para provar. Aromas deliciosos de fruta chegam ao meu nariz bem antes da taça, trazendo junto a resposta para esta pergunta: além de ser um vinho sadio, livre de químicas, é um vinho com intensa expressão aromática. As práticas biodinâmicas favorecem um maior desenvolvimento dos elementos aromáticos da uva que, combinados com o uso de leveduras selvagens ou indígenas, presentes na casca da uva e que são típicas do lugar, darão personalidade ao vinho e a identidade deste lugar de origem.
 
 
 
 


Por enquanto apenas o Imortali é 100% biodinâmico. Em 2014 virá também um Sauvignon Blanc. Os outros vinhedos ainda estão em processo de transição, que é lento, e tratados com práticas combinadas, um trabalho feito em parceria com outro competente profissional, o agrônomo Alessandro Paviani. Juntos os dois tomam todas as decisões quanto ao manejo do vinhedo, desde o sistema de condução, podas, raleio de folhas até o momento adequado para realizar os tratamentos, dentro do calendário determinado pelas estações do ano e fases da lua.


A dupla biodinâmica Alessandro e Jefferson


O manejo é outro ponto crucial para um trabalho bem sucedido . O Jefferson salienta que trabalhar em um sistema biodinâmico não é uma fórmula a ser aplicada igualmente em vinhedos de qualquer parte do mundo. Como se trata de natureza, ecossistema, é preciso observar o solo, o microclima, a flora e fauna do lugar para adaptar o que vai funcionar melhor. E este é um trabalho diário e constante quando se quer fazer bons vinhos, sejam eles biodinâmicos ou não.




Terminado o trabalho do dia, encontramos Dona Carolina, mãe de Célio e Claudir De Nardi, proprietários da vinícola. Ela, que no início era resistente às mudanças propostas pelo Jefferson, está agora colhendo as alcachofras tradicionais da região cultivadas com práticas biodinâmicas.
Pergunto a ela qual destes vinhos é o seu preferido, que me responde com seu forte sotaque do dialeto italiano local e um sorriso cheio de orgulho: “ah, gosto de todos!”
Ela tem razão, todos são bons, resultado de um trabalho primoroso. A noite, no jantar preparado pelo próprio Jefferson, que cozinha muito bem, nos deliciamos com uma salada de folhas verdes da sua horta e um risoto com as alcachofras colhidas pela Dona Carolina, acompanhados de alguns destes belos vinhos produzidos na Santa Augusta. É claro que depois de um dia de imersão na biodinâmica não poderia faltar o Imortali 2012, que encanta com sua elegância de aromas e equilíbrio incrível em boca.

                                             

   

 

Depois de ver esse trabalho tão de perto a gente sente que valem a pena todos estes esforços cada vez que se abre qualquer um dos espumantes, brancos ou tintos deste projeto especial.
Se a primeira safra deste ousado trabalho já surpreende, então fico a pensar o que vem pela frente da combinação desta terra promissora e de um trabalho biodinâmico minucioso. Não demora para sabermos em nossas taças tudo de bom que vem por aí.



 

8 comentários:

O Canal do Vinho disse...

Adorei o artigo Sônia. Aqui em Malta, na importadora em que trabalho, a maior parte dos vinhos são Orgânicos ou Biodinâmicos e a procura só tem crescido. Fico muito feliz em saber que o Brasil também está acordando para esse mercado. Final do ano estou de visita pelas bandas daí e fiquei super curiosa em visitar a vinícola. Jessica Marinzeck

Madame do Vinho disse...

Olá Jessica,
Que bom que gostou deste artigo. E que interessante saber deste teu trabalho aí em Malta!
O consumo deste estilo de vinhos vem crescendo sim no Brasil, e a produção começa a dar seus primeiros passos e indo por um caminho muito bom!
Vamos mantendo contato.
Abração

JUAREZ DONIZETE disse...

Realmente é uma matéria muito bem elaborada .
É de fato percebido o verdadeiro amor,esforço e dedicação a este trabalho dos profissionais que fazem os vinhos Biodinâmicos .
E o mais beneficiados somos ``Nós Amantes de vinhos (Enófilos)´´.Juarez Donizete.

Madame do Vinho disse...

Concordo contigo Juarez. Só temos a ganhar com trabalhos dedicados e apaixonados como este!

Rômulo Bittencourt Pereira disse...

Vinho excepcional e que honra a produção de vinhos nacionais. Cada vez que abro uma garrafa de Imortali me surpreendo com a sua evolução! Hoje, abri uma garrafa com um amigo sommelier de importante restaurante em Copacabana, que tinha imensa curiosidade em degustar uma garrafa. Ao final, perguntei se estaria no nível de um Catena Zapata, pelo menos. Ao que respondeu: Melhor! Está ao lado de um Clos Apalta. Depois dessa, compre a sua antes q acabe!

Madame do Vinho disse...

É muito bom ver vinhos brasileiros sendo reconhecido entre os bons vinhos do mundo Rômulo.
Hoje temos mesmo do que nos orgulhar!

Glória Tupper disse...

Olá! Ainda hoje, em 2016, só temos o Imortali com representante brasileiro?

jupiter disse...

Fico curioso, porque em todos os artigos que leio sobre os biodinâmicos, ninguém informa como agir perante os fungos que se venham a instalar nos vinhedos, nomeadamente míldios e oídios e penso que na natureza são inevitáveis, até pelo próprio artigo quando diz que o chifre-sílica ajuda a manter a humidade do solo para melhor absorção dos alimentos. Portanto humidade e calor, dois fatores que muito contribuem para a formação de fungos. E uma outra questão para além de muitas, é : porque razao os enólogos biodinâmicos são contra as trasfegas, se é uma operação de caráter fisico e não químico. Como estabilizam e clarificam os vinhos?. Tento seguir este conceito, mas falta muita informação. Sou apenas um emigrante curioso, faço vinho em casa para consumo, vivo na Costa Leste dos EUA e gostaria que alguém de direito me elucidasse sobre o assunto. Se possível para o meu email: partidodoemigrante@yahoo.com pois posso não encontrar este site novamente. Antecipadamente o meu muito obrigado.Manuel Carrelo.