terça-feira, 21 de janeiro de 2014

10 Anos com os Vinhos do Brasil

Neste ano de 2014 completo 10 anos de trabalho dedicado aos vinhos do Brasil. 
Que jornada fantástica! E quantos aprendizados, que quero compartilhar neste primeiro texto do ano.
Durante este tempo tive o prazer de descobrir preciosidades produzidas em nosso país. Andei por vinhedos e vinícolas atenta a cada palavra dos produtores para perceber os detalhes que tornam seus vinhos únicos e surpreendentes. Provei da uva madura no pé e do vinho vivo recém nascido da fermentação para entender suas origens. Mas foi quando sentei à mesa para partilhar de suas sempre generosas refeições é que percebi a beleza do vinho brasileiro, feito para receber, acolher e encantar quem chega de coração aberto e muito apetite!


Destes momentos e tantas partilhas nasceram verdadeiros parceiros e amigos. Uma gente que eu respeito e admiro, porque é gente que sabe, acredita e ama o que faz, e de cujo trabalho eu tenho imenso orgulho em hoje ser parceira.
Tenho uma relação forte com o Rio Grande do Sul. Lá estão a origem da minha família e as minhas raízes. Cresci convivendo com esta cultura e mantive os laços através do vinho. Se me dedico a trabalhar com vinhos brasileiros não é apenas por conta desta afinidade, mas porque minhas andanças por este universo me levaram a ter plena convicção de que são tão bons quanto qualquer vinho do mundo. Repito: vinho brasileiro é tão bom quanto qualquer vinho do mundo! Muitos podem não concordar e não gostar. Respeito, é um direito e o paladar de cada um. Porém isso jamais irá invalidar o fato de que o Brasil já produz vinhos com qualidade. Diferentes sim, com personalidade própria, mas é preciso ficar claro que produzir com qualidade não significa fazer vinhos iguais. 
Cada vinho de cada país e de cada uma de suas regiões é único. Mesmo vinhos de uma mesma região tem diferenças entre si e cada um é bom por suas características particulares. Então por que esperar sempre o mesmo de vinhos de diferentes origens? Por que esperar que um vinho brasileiro seja igual a Malbec argentino, a Carménère chileno, a Bordeauxs, Champagnes, Douros ou Riojas, se mesmo estes não são iguais entre si? 

O que queremos: vinhos iguais...

ou originais?

A verdadeira beleza e a essência do mundo do vinho, seja de que origem for, é feita de singularidades, diversidade, surpresas e por suas encantadoras imperfeições, traços naturais que nascem da uva e de seu lugar de origem, e que como em nós seres humanos, nos diferenciam e nos tornam únicos. Falo de imperfeições e não de defeitos! O especialista português Rui Falcão as define muito bem : “Porque as imperfeições, as pequenas e delicadas imperfeições do vinho, são o sal e a pimenta que condimentam o fascínio do vinho, que acrescentam carácter, que alimentam e enfatuam a personalidade de cada vinho. Muitos dos enólogos, criadores de vinho de formação regrada e científica, de tão formatados e racionalmente condicionados para reparar os putativos defeitos do vinho, acabam por estripa-los de todas as pequenas irregularidades, que lhes acrescentam alma e condição.”



É deste vinho que falo, do autêntico, sem máscaras ou efeitos especiais, feito por vinhateiros artesãos, que tiram da terra e de suas  mãos o seu melhor para mostrar que neste país é possível fazer mais do que vinhos com técnica e qualidade, mas entregar vinhos genuinamente brasileiros. 
Ao contrário do que muitos dizem, temos sim o “terroir” para produzir esse vinho. Não um igual ao da França ou da Itália, do Chile, da Argentina, da África do Sul ou do distante Leste Europeu, mas um cuja combinação de condições particulares gerou um terroir diferente e especial. Nasce em solos basálticos, arenosos, argilosos e graníticos. Sofre o frio rigoroso do inverno e se aquece sob verões luminosos, com amplitudes térmicas que as vinhas tanto gostam. Recebe mais chuva sim, assim como Bordeaux, que faz variar uma safra da outra, o que nunca impediu que vinhos dos melhores anos se tornassem raros sonhos de consumo. As latitudes mais baixas que 30o se combinam com altitudes mais elevadas em lugares especiais, criando o ambiente favorável para que as uvas amadureçam plenamente. Tais condições geram vinhos brasileiros com características mais semelhantes aos do Velho Mundo, sem tanta potência, mas com mais elegância, com álcool moderado, taninos macios e acidez naturalmente refrescante. Inclusive esse estilo é tendência no mundo, um potencial que a crítica especializada internacional já identificou no Brasil, incentivando os produtores a preservar o estilo. Não sou eu que estou dizendo, é o crítico inglês Oz Clarke nesta entrevista quando veio ao Brasil pela última vez em 2011:
http://www.youtube.com/watch?v=KQwJ9_Q6pLI

Foto: Gil Gomes

O novo vinho brasileiro carrega hoje um saber fazer de 138 anos, que se revela através de tantos estilos diferentes. Espumantes vibrantes, que não são, nem nunca serão iguais a Champagne, mas que já são reconhecidos por sua qualidade e estilo dentro e fora do país, capazes inclusive de encantar importantes críticos internacionais, como a Master of Wine inglesa Jancis Robinson, que apresentou ao mundo o Cave Geisse 1998 no Wine Future de 2011 em Hong Kong.
http://www.youtube.com/watch?v=cBn6rjZf0Bw

São também brancos singulares, que não são como Chardonnays da Bourgogne, Sancerres do Loire ou Alvarinhos do Minho, mas que são Riesling Itálicos salivantes, Peverellas apimentadas e Moscatos  perfumados.
Os tintos não tem a mesma potência de Bordeaux, de Colchagua, do Douro ou da Rioja, mas tem a raça e o sabor das serras Gaúcha, do Sudeste ou de Santa Catarina, da Campanha Gaúcha e de Campos de Cima da Serra, da querida Minas e de Goiás, e que são deliciosos, macios e convidativos para a mesa. São os clássicos Merlots, mas também Marselans, Teroldegos e Ancellottas a nos convidar para novas experiências. Tem ainda rosés leves e cheios de fruta para refrescar a alma quente do brasileiro. E para quem não sabe, falo inclusive de ice wine, um vinho do gelo nascido naturalmente do rigoroso inverno da serra catarinense e até mesmo de um licoroso com Botrytis natural que por lá já se manifestou.
A rota dos vinhos brasileiros passa por grandes empresas e também por pequenas propriedades familiares, por vinícolas boutique, de garagem e de autor, oferecendo uma paleta de vinhos tão diversificada como são os paladares do povo deste país.


O vinho do gelo nascendo nas vinhas da serra catarinense.

Tenho sempre estes vinhos em minha adega, lado a lado com importados de todo mundo, e que consumo regularmente. Com eles recebo amigos em casa e presenteio. Sei que muitas vezes não agrado, mas não me importo, sigo acreditando neste caminho.
Olhando para tudo que vivenciei nestes 10 anos e para o momento atual fico a pensar no que vem a seguir. Acredito que num futuro bem próximo teremos vinhos que não vão apenas se destacar por uma qualidade aprimorada, mas que serão reconhecidos por uma autêntica identidade brasileira e por serem muito agradáveis de beber. É nisso que os produtores estão trabalhando neste exato momento.



Para apreciar basta apenas abrir a cabeça, o coração e um espaço na taça para descobrir as suas delícias.
Para refletir, deixo a frase de um produtor que me marcou: "é preciso acreditar mais". 
Então vem comigo, acompanhado de boa música gauchesca, uma das que mais gosto e que me faz lembrar o lado bonito do Brasil.
http://www.youtube.com/watch?v=x4_O_72Op3k


5 comentários:

Débora Portela disse...

Que belo texto! Nele está tudo o que eu penso sobre o vinho brasileiro e que eu gostaria de ter escrito. É isso, não defendemos o patriotismo no vinho, mas a abertura de um espaço que se faz justo. E mérito está na diversidade. Quem realmente gosta de vinho, quem enxerga o vinho além do líquido, sabe do privilégio que nós brasileiros estamos tendo. São vinhos especiais por sua tipicidade, raros porque estão confinados a este país, alguns feito de uvas pouco convencionais e de outras esquecidas. Fico muito feliz em poder provar aqui vinhos de todo o mundo, incluindo o nosso!

Madame do Vinho disse...

Tão bom saber que mais gente partilha deste modo de ver e fazer o vinho brasileiro Débora Portela!
Você disse algo importante, de não defendermos um patriotismo puro e simples, mas aquilo que é realmente bom feito em nosso país e que merece espaço, como todos os outros vinhos.
É um privilégio mesmo provar vinhos do próprio país e de todo o mundo, e poder sentir orgulho de que sejam diferentes e tão bom quanto.

|HOB|™Dudaum12 disse...

Muito obrigado pelo seu post! Simplesmente bem formulado. Cada um tem sua opnião, mas não sejamos hipocritas, o Brasil hoje tem vinhos que se garantem frente aos outros do velho mundo!!

Show

Henrique Silva Pinto disse...

Muito legal! Adorei, Sonia...compartilho com você em gênero, número e grau....O encantamento do vinho está justamente nas inúmeras possibilidades de nos surpreender a cada experiência realizada, a cada garrafa desarrolhada...e, sem dúvida, aqui no Brasil, essa diversidade é fantástica! Grande abraço!

Rogerio Ruschel disse...

Sonia, gostei muito, mas muito mesmo do teu texto sobre os 10 anos. Na verdade não é sobre os 10 anos, e sim, sobre o prazer que você tem em descobrir delicias em nossos vinhos. Teu texto foi também um dos raros que revelou a importancia do depoimento do Oz Clarck naquele video importantissimo sobre a personalidade de nossos vinhos, e que está esquecido - especialmemte por nossos produtores. Parabéns, de novo, abs