segunda-feira, 5 de maio de 2014

Santa Catarina para todos os sentidos


"A indústria mais poderosa é a natureza." Esta frase marcou a palestra de Acari Amorim, presidente da Acavitis (Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude) e produtor da Vinícola Quinta da Neve, na abertura do evento "1a Vindima de Altitude de Santa Catarina", que aconteceu de 11 a 13 de abril.  A festa é a primeira, mas as vindimas já são muitas nestes 15 anos desde que os primeiros vinhedos de viníferas foram implantados na região. O evento celebrou os bons vinhos que vem sendo produzidos por lá e marcou o início de uma nova fase de investimentos para transformar a região no mais novo polo enoturístico do Brasil. Neste momento de consolidação para os Vinhos de Altitude, como são conhecidos hoje os vinhos finos da serra catarinense, a frase do Acari traz consigo uma importante reivindicação ao governo do estado, mostrando que investir no segmento vitivinícola é o melhor caminho para o desenvolvimento econômico e social da região, uma das mais carentes do estado, e que tem em seus recursos naturais, abundantes e exuberantes, um potencial imenso e pronto para ser explorado.



Enoturismo é a resposta para esta região. Como em todos os países produtores, e no próprio Rio Grande do Sul, com o Vale dos Vinhedos, o vinho alavanca o turismo local, e não será diferente na serra catarinense. O enoturismo, impulsionado pelo aprimoramento da produção, pela estruturação das vinícolas e pela valorização das características naturais locais, irá desenvolver a economia e gerar empregos com o aumento da oferta de hotéis e restaurantes, com o incremento do artesanato, das atividades de lazer ao ar livre e do turismo rural, já estabelecido pela serra.



Esta região de uma beleza incrível é ainda carente de infra-estrutura turística, mas quem gosta de aventura vai se encantar com os atrativos naturais da Serra Catarinense: paisagens deslumbrantes delineadas por uma natureza exuberante, marcada por montanhas, canions de tirar o fôlego, pinheiros e araucarias; invernos com neve, verões amenos de noites frescas, culinária típica temperada pelo pinhão e um terroir especial para fazer vinhos únicos, que combinam com tudo isso.


Pedra Furada vista do Morro da Igreja, em Urubici

Os bons vinhos produzidos em Santa Catarina já ganharam a atenção do mercado e agora é preciso investir na infra-estrutura adequada para receber os visitantes. O setor uniu forças e está buscando os recursos. Acavitis, representando os 30 produtores associados, prefeitura e Secretaria de Turismo atraíram a atenção do governo do estado conseguindo trazer o Governador José Raimundo Colombo e dois senadores do estado para o evento.  Quem sabe virá deste estado o início das mudanças tão necessárias para o segmento do vinho e que possam se estender para as demais regiões  produtoras do país. É preciso continuar acreditando e trabalhando, juntos!



Fiquei feliz em participar desta festa, aproveitando para também celebrar meus 10 anos de trabalho numa viagem deliciosa por estas terras brasileiras que eu tanto amo e provando de seus bons frutos.
Como bem disse o Acari, esta natureza é mesmo poderosa, beleza de tirar o fôlego e sabores que encantam, do litoral até a serra. Mas ainda é preciso relevar o mau estado da maioria das estradas e a pequena oferta de hotéis e restaurantes para desfrutar de toda sua beleza natural.


Andei, ou melhor, dirigi por mais de 2.500 km para mais uma vez mergulhar fundo no universo catarinense do vinho. É um novo horizonte a nos encantar e que sugiro a todos os aventureiros, como eu, conhecer.


Um bom começo para esta viagem é ainda a nível do mar azul de Florianópolis, numa parada para visitar a Quinta da Figueira, do Rogério Gomes. O garagista de Floripa é perfeccionista e auto-didata. Atualmente estuda enologia a distância pela Universidade de Davis da Califórnia. É dedicado, busca a excelência, e fermenta todas as informações que absorve para transformá-las em vinhos de muita classe. Por falar em fermentação, cheguei a tempo de dar uma mãozinha na remontagem dos novos vinhos.


Rogério é ousado e por ser pequeno pode se dar ao luxo de experimentar, desde produções naturais a vinhos de guarda. Tão ousado que está plantando vinhas ao norte de Florianópolis, em Lagoinha do Norte, num lugar escolhido a dedo por ele e onde existe inclusive a produção de uma cachaça orgânica, a Cachaça do Tide. Um projeto que promete!



90 km a frente uma nova parada, na charmosa Praia do Rosa, Domínios de Lizete Vicari. Visitar a Lizete é como rever uma  amiga de longa data. Ela nos faz sentir em casa com bom papo,  muitas histórias, cafezinho e, é claro, com seus encantadores vinhos naturais. Vinhos que refletem sua história de vida, sua personalidade e seu jeito de viver, natural, livre e autêntico.
Este ano as uvas de Monte Belo do Sul, de vinhedos cuidados pela família e com as quais sempre fez seus vinhos, foram afetadas por condições adversas do clima. Mas a Lizete não se entrega e conseguiu novos parceiros, na serra catarinense, que lhe abriram possibilidades incríveis. Vem aí um Gewurztraminer, um Sauvignon Blanc, um Ribola Gialla e um Sangiovese, de vinhedos orgânicos. Provei o Sangiovese ainda turvo da fermentação recém terminada e de uma expressão incrível. A propósito, esta variedade vem sendo bastante pesquisada e já se mostra uma das mais promissoras na serra catarinense.




Fui embora com vontade de ficar mais, para conversas regadas a vinho e para conhecer melhor esse lugar incrível, reduto de muitos artistas como a Lizete. Mas a estrada sempre me chama de volta, então fui em frente. Segui em direção a serra, com uma parada no meio do caminho para visitar um projeto muito especial, que não vou contar agora, pois merece um texto dedicado só para ele!

Para mim o prazer de viajar é também o caminho, e isso é mais verdadeiro ainda quando se sobe a Serra do Rio do Rastro até chegar a Bom Jesus da Serra, caminho rumo a São Joaquim. Imperdível! Ajuda dizer que já foi eleita como uma das estradas mais bonitas do mundo?


Neste lugar as vinhas e os vinhos que esperem um pouco, pois é obrigatória uma parada no mirante do alto da serra, a vista e as curvas são de tirar o fôlego. 
E já com fôlego recuperado, é hora de partir em direção a São Joaquim. Para quem gosta de fotografia como eu, a viagem acaba levando o dobro do tempo. A toda hora dá vontade de parar para clicar a paisagem, uma montanha, um vale e, no meu caso, muitas araucárias, árvore que eu amo desde a infância, e que hoje é preservada em todo o sul do Brasil.


Um pouco antes de chegar a São Joaquim outra parada bem interessante, o Snow Valley. Misto de restaurante, bar, pousada e centro para prática de arvorismo, tirolesa, caminhadas por trilhas e até mesmo imersão em inglês. Vale parar para tomar um café numa canequinha esmaltada, sempre quentinho, mantido sob fogo a lenha, enquanto se aprecia uma vista deslumbrante do vale.


São Joaquim é uma pequena cidade, com a economia movida pela maçã, que agora começa a ganhar o reforço do vinho. No inverno a grande atração é a neve e quando ela chega, chegam também turistas de todos os cantos do país para curtir esse momento único no Brasil. Esta é também a época do pinhão e é quando se pode provar as receitas típicas locais, como o entrevero, prato tradicional da cidade de Lages, que reúne o pinhão e diversos tipos de alimentos, como carne e bacon. Delicioso!


Comida e vinho local são mesmo uma harmonização perfeita. Parece haver uma conexão no paladar em tudo o que vem de uma mesma terra, de uma mesma localidade. O entrevero caiu como luva com o já típico corte de Cabernet Sauvignon e Merlot feito por lá. Os vinhos da serra catarinense tem mesmo uma vocação gastronômica. As uvas amadurecem lenta e plenamente por conta de verões amenos com noites frias. O tempo da colheita ocorre mais tarde, podendo chegar até maio no caso das uvas mais tardias. Estas condições geram uvas com bom teor de açúcar, gerando álcool em torno de 12 graus para brancos e 14 para tintos. O lento amadurecimento permite a preservação dos ácidos naturais e a formação plena de polifenóis, permitindo longa guarda a estes vinhos.

Algumas vinícolas próximas a São Joaquim, como Villa Francioni, Sanjo, D'Alture e Monte Agudo já dispõe de uma estrutura para receber os visitantes. Visitar vinhedos e as instalações onde são feitos os vinhos é sempre muito interessante, mas as vezes o encantamento vem de momentos especiais vivenciados com o vinho. É o que acontece na Monte Agudo, que ainda não tem uma vinícola pronta, mas um espaço maravilhoso no alto de um morro,  construído em madeira e vidro para se integrar a natureza e aos vinhedos que se estendem ao seu redor. Lá a família põe a mão na massa para receber calorosamente os visitantes, seja para uma refeição local, um pic-nic ou uma degustação ao por do sol, tudo acompanhado de seus bons vinhos e com um vista incrível das montanhas da região.


Para quem gosta de dirigir como eu vale algumas horas a mais de estrada para visitar outras preciosidades da serra, como a Abreu Garcia em Campo Belo do Sul, 136 km de São Joaquim; a Santa Augusta em Videira, 240 km, e a Villagio Grando, com uma belíssima propriedade em Água Doce, a 282km. Todas elas entre 1.000 e 1.400 metros de altitude.

O espaço de degustação da Villagio Grando

Para quem dispõe de pouco tempo é possível viver uma experiência bem completa dos vinhos da Serra Catarinense na loja Casa do Vinho, no centro de São Joaquim. Sr. Vilson, o dono, tem o maior orgulho em apresentar a seleção que tem em sua loja dos melhores vinhos produzidos na região.

Depois de tanta comida e bebida boa o que não falta são atividades ao ar livre para gastar as calorias, caminhando por trilhas e se debruçado sobre canions para apreciar vistas deslumbrantes de vales e montanhas que, com sorte, no inverno, poderão ser encontrados cobertos de neve. Os mais aventureiros podem se lançar em tirolesas e rapel. Todas estas atividades fazem parte do que lá se chama de turismo rural, que se estendem por cidades vizinhas como Urubici, Urupema, Rio Rufino entre outras, onde são registradas todos os anos as mais baixas temperaturas do Brasil.



Esta é a bela Santa Catarina, é Brasil, bonito de se ver e de se provar. Vem experimentar essa terra boa você também!


"Em cada céu e em cada chão
minha alma lá deixei"
Vento Negro - Kleiton & Kledir


4 comentários:

Rômulo Bittencourt Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rômulo Bittencourt Pereira disse...

Uma das mais vibrantes e esclarecedoras matérias que já li sobre a região, que sou profundamente apaixonado! Sou Carioca que ingressou no mundo do Vinho - Hoje tenho a única empresa no estado especializada em rótulos de boutique e altitude Catarinenses, com mto orgulho, pois não tenho dúvida de que este é o eldorado do vinho brasileiro, além do mais lindo lugar de montanha do Brasil. Pouco divulgado - talvez, uma "malandragem" do povo Catarina - e de uma beleza indescritível com seus Pinheiros de Araucárias e Pinus Americanos que enfeitam os vales mostardas, canyons... além dos belíssimos muros de taipas que enfeitam a região. Para os que não conhecem, recomendo e lamento, pois, no Brasil, ainda não vi nada similar em termos de beleza, clima e gastronomia. Parabéns!

Madame do Vinho disse...

Que bom saber que você também é um apaixonado por esta região incrível Rômulo!
E parabéns a você também por ser mais um incentivador e divulgador destes belos vinhos.
Há muito trabalho ainda por fazer, mas com certeza essa região já mostrou o grande potencial que tem para vinhos e para turismo, e vai crescer muito.
E vamos em frente!
Grande abraço

Jacy Carlos Gubert disse...

Que legal.. adorei. Para quem já passou por alguns desses lugares citados, fica a lembrança é a certeza de que Santa Catarina, tem tudo para aprimorar seu turismo, especialmemte a serra catarinense.
Parabéns pelo texto.